Estudos da APA – Biblioteca Digital Itupararanga

Levantamento da fauna bentônica de artrópodes em diferentes ambientes da bacia de drenagem da represa de Itupararanga, Votorantim (SP, Brasil).

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Survey of the benthic fauna of arthropods in different environments of the drainage basin of the Itupararanga dam, Votorantim (SP, Brazil).

INTRODUÇÃO

O rio Sorocaba é o maior afluente da margem esquerda do rio Tietê. Suas águas abastecem a população urbana e rural inserida em sua bacia hidrográfica. Ao longo de todo o seu percurso, fornece água e outros recursos que, muitas vezes, são explorados em excesso, poluídos ou perturbados, prejudicando o ambiente e, por consequência, a própria oferta desses recursos naturais (Smith, 2003).

Dentre os diversos ecossistemas que estão sendo degradados, os ecossistemas aquáticos sofrem grande pressão devido a múltiplos impactos ambientais decorrentes de atividades antrópicas, tais como mineração, construção de represas e barragens, retificação e desvio do curso natural dos rios, lançamento de efluentes domésticos e industriais não tratados, desmatamento e uso inadequado do solo em regiões ripárias e planícies de inundação, exploração de recursos pesqueiros, introdução de espécies exóticas, entre outros (Goulart & Callisto, 2003).

A conservação da biodiversidade em geral — e, em especial, da biodiversidade aquática — é, portanto, fundamental para a manutenção dos processos da biosfera e para assegurar o curso da evolução natural dos sistemas (Matsumura Tundisi & Tundisi, 2008).

Os organismos que habitam os ecossistemas aquáticos apresentam diversas adaptações evolutivas e limites de tolerância a determinadas condições ambientais. Esses limites variam de espécie para espécie, sendo algumas mais tolerantes e outras intolerantes aos diferentes tipos de impactos ambientais (Alba-Tercedor, 1996). Portanto, é importante compreendermos o comportamento das espécies em sua seleção de habitats, suas interações com outras espécies e a tolerância de cada população às variações físicas e químicas do ambiente (Matsumura Tundisi & Tundisi, 2008).

Os macroinvertebrados bentônicos são e cientes para o monitoramento e avaliação de impactos ambientais e atividade antrópicas em ecossistemas aquáticos continentais, porque apresentam uma grande diversidade de espécies, sendo encontrados em quase todos os tipos de hábitats de água doce, sob diferentes condições ambientais (Esteves, 1988). A an alise biol ogica dos macroinvertebrados aquáticos como indicadores da qualidade da água, tem sido realizada durante quase um s eculo e atualmente fazem parte de programas de monitoramento na Europa, América do Norte e Austrália (Eaton, 2006). A composição qualitativa da fauna bentônica  e um bom indicador das condições tr o cas e do grau de poluição dos rios e lagos porque existem organismos, como Chironomus, que resistem a baixas concentrações de oxigênio dissolvido (Matsumura Tundisi &Tundisi, 2008).

O uso de bioindicadores e também sustentado pela legislação dos Recursos Hídricos (Lei 9433/97, que instituía Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos), tendo como um de seus preceitos \considerar que a saúde e o bem estar humanos, bem como o equilíbrio ecológico aquático, não devem ser afetados como consequência da deteriora c~ao da qualidade das águas”, justificando a necessidade da avaliação das comunidades biológicas para a manutençãao da integridade dos ecossistemas aquáticos (Silveira et al., 2004).

OBJETIVOS

O objetivo deste trabalho foi caracterizar a fauna bentônica de artrópodes da bacia de drenagem da represa de Itupararanga que, atualmente, sofre grande press~ao antropogênica devido a diversos fatores que incluem industrialização exacerbada, despejo de euentes, supressão da vegetação ripária, aplicando o índice BMWP-Biological Monitoring Working Party, utilizado atualmente em muitos programas de monitoramento ecológico e o índice de diversidade de Shannon – Wiener.

MATERIAL E MÉTODOS

Realizou-se quatro coletas no período de setembro de 2008 a abril de 2009, cada uma com 5 pontos amostrais, dos quais dois foram lagoas marginais à represa, uma nascente, um ponto na represa de Itupararanga e um ponto na Cachoeira da Chave (localizada a jusante da represa).

No próprio local de coleta, com auxílio de aparelhos eletrônicos, foram levantados os seguintes dados físicos e químicos: pH, condutividade, sólidos totais dissolvidos e oxigênio dissolvido.

Para a coleta dos artrópodes bentônicos foram utilizados aparelhos amostrais do tipo “Surber”, que consistem em um quadrado com área amostral de 900 cm², com malha de 500 micras em uma de suas extremidades, para a qual é transferido todo o material contido dentro desse quadrado, capturando assim os artrópodes bentônicos. Outro método de coleta foi a utilização do aparelho amostral tipo “kick net” com malha de 500 micras. Esse aparelho consiste em uma rede com área de 10.000 cm², com extremidades rígidas, de modo que possa ser introduzido nos habitats colonizados pelos artrópodes bentônicos.

Após a coleta, o material foi transferido para sacos plásticos contendo álcool etílico a 70% para fixação dos organismos ali presentes, conforme sugerido por Silveira et al. (2004). Cada amostra foi identificada imediatamente, contendo dados como ponto de coleta, tipo de substrato e data.

A triagem dos organismos foi realizada no Laboratório de Ciências Biológicas da Universidade Paulista, campus Sorocaba. O material recolhido e fixado foi lavado em peneira com malha de 500 micras e, então, colocado sob solução supersaturada de NaCl ou açúcar, na proporção de 500 gramas de açúcar ou NaCl para 2 litros de água. Dessa forma, os organismos flutuam, facilitando sua visualização. Para a identificação dos macroinvertebrados bentônicos foi utilizada a chave taxonômica de Costa et al. (2006).

Para a análise dos dados coletados utilizou-se a métrica BMWP (Biological Monitoring Working Party), inicialmente utilizada na Inglaterra. Esse índice ordena as famílias de macroinvertebrados aquáticos em 9 grupos, seguindo um gradiente de menor a maior tolerância à poluição. A cada família corresponde uma pontuação que começa em 1 e chega a 10; as famílias mais intolerantes à poluição recebem pontuações maiores, decrescendo até 1, onde estão as mais tolerantes (Loyola, 2000). Para analisar a estimativa de diversidade de cada ponto foi utilizado o cálculo de Shannon-Wiener.

RESULTADOS

Foram coletados 602 organismos, distribuídos em 22 táxons, sendo 5 famílias de Diptera, 1 família de Megaloptera, 5 famílias de Odonata, 3 famílias de Coleoptera, 5 famílias de Hemiptera e 3 famílias de Ephemeroptera. Houve predominância de Chironomidae (Diptera), com 68,6% dos organismos, seguida de Pleidae (Hemiptera), com 7,14%, e Libellulidae (Odonata), com 4,48% dos organismos coletados.

A predominância de organismos da família Chironomidae deve-se à alta tolerância a variações ambientais. Esses organismos podem viver em condições de anóxia por várias horas, além de serem detritívoros, alimentando-se de matéria orgânica depositada no sedimento, o que favorece sua adaptação a diversos tipos de ambientes e reduz a exigência por diversidade de habitats e micro-habitats (Goulart & Callisto, 2003).

Analisando a bacia ponto a ponto, por meio do índice de diversidade de Shannon-Wiener, os locais que obtiveram maiores índices (e, consequentemente, maior qualidade de suas águas) foram as lagoas marginais à represa, que apresentaram também menor condutividade e menor taxa de sólidos totais dissolvidos. Os locais com valores menores no índice foram os pontos da Cachoeira da Chave e da represa de Itupararanga.

Essa diferença entre os pontos pode ser explicada pelo fato de que as lagoas marginais da represa apresentam vegetação ripária mais conservada (Corbi & Trivinho-Strixino, 2006), dispondo de maior quantidade de micro-habitats e por não sofrerem despejo direto de efluentes domésticos e outros tipos de intervenções antrópicas, como ocorre nos demais pontos. O ponto mais impactado, considerando todas as análises, foi o da Cachoeira da Chave, posicionado a jusante da represa; entre os fatores mais evidentes estão a localização próxima à área urbanizada, visitação descontrolada, vegetação ripária suprimida e, como consequência, maior pressão das atividades antrópicas.

Aplicando o método BMWP, incluindo os organismos coletados em toda a bacia, obteve-se a pontuação 84, indicando que a bacia de drenagem da represa de Itupararanga apresenta águas em estado “aceitável, com algumas evidências de contaminação”, com coloração verde nas representações cartográficas (Alba-Tercedor, 1996).

Apesar de a métrica BMWP ter classificado a bacia de drenagem da represa de Itupararanga em estado aceitável, foram observados durante as coletas muitos impactos antropogênicos em todos os pontos amostrais. O mais significativo foi a supressão da vegetação ripária — ponto-chave para os grupos fragmentadores e raspadores de macroinvertebrados bentônicos, que se alimentam do litter depositado por esse tipo de vegetação. Consequentemente, sem a presença desses grupos, predadores e parasitas também são afetados (Marques et al., 1999).

CONCLUSÃO

A comunidade de artrópodes bentônicos da bacia de drenagem da represa de Itupararanga mostrou-se consideravelmente preservada; porém, analisando ponto a ponto, ficaram evidentes os locais que necessitam de medidas mitigadoras com maior urgência.

O estudo também mostrou que os pontos que não pertencem diretamente ao continuum da represa de Itupararanga (lagoas marginais e nascente) estão menos impactados, devido à ausência de despejo de efluentes domésticos e ao melhor estado de conservação da vegetação ripária.

Agradecimentos — Agradeço à Universidade Paulista pelo apoio e à Hábil Serviços e Ind. Com. Ltda. pelas análises da água e pelos equipamentos disponibilizados.

REFERÊNCIAS

Alba-Tercedor, J. (1996). Macroinvertebrados acuáticos y calidad de las aguas de los ríos. IV Simposio del Agua en Andalucía (SIAGA), Almería, v. 2, 203–213.

Corbi, J. J., & Trivinho-Strixino, S. (2006). Influence of taxonomic resolution of stream macroinvertebrate communities on the evaluation of different land uses. Acta Limnol. Bras., 18(4), 469–475.

Costa, C., Ide, S., & Simonka, C. E. (2006). Insetos imaturos: metamorfose e identificação. Holos Editora, Ribeirão Preto, 249 p.

Eaton, D. P. (2006). Macroinvertebrados aquáticos como indicadores ambientais da qualidade de água. In: Cullen Jr., L., Rudran, R., & Pádua, C. V. (Eds.), Métodos de estudos em biologia da conservação e manejo da vida silvestre (2ª ed.). UFPR, Paraná, 651 p.

Esteves, F. A. (1988). Fundamentos de Limnologia. Interciência Ltda., Rio de Janeiro, 2ª ed., 602 p.

Goulart, M., & Callisto, M. (2003). Bioindicadores de qualidade de água como ferramenta em estudos de impacto ambiental. Revista da FAPAM, 2(1).

Loyola, R. G. N. (2000). Atual estágio do IAP no uso de índices biológicos de qualidade. Anais do V Simpósio de Ecossistemas Brasileiros: Conservação, v. 1, Conservação e Duna. Publ. ACIESP, n. 109-1, 46–52.

Marques, M. G. S. M., Ferreira, R. L., & Barbosa, F. A. R. (1999). A comunidade de macroinvertebrados aquáticos e características limnológicas das lagoas Carioca e da Barra, Parque Estadual do Rio Doce, MG. Revista Brasileira de Biologia, 59(2), 203–210.

Silveira, M. P., Queiroz, J. F., & Boeira, R. C. (2004). Protocolo de coleta e preparação de amostras de macroinvertebrados bentônicos em riachos. EMBRAPA Jaguariúna, SP, 7 p.

Smith, W. S. (2003). Os peixes do Rio Sorocaba: a história de uma bacia hidrográfica. Editora TCM-Comunicação, Sorocaba, 160 p.

Tundisi, J. G., & Tundisi, T. M. (2008). Limnologia. Oficina de Textos, São Paulo, 632 p.